Todos os dias morrem 80 bebés à nascença em Moçambique

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Todos os anos morrem em Moçambique cerca de 29 mil recém-nascidos, segundo a UNICEF. As autoridades pedem às mulheres grávidas para não terem os bebés em casa. Mas muitas continuam a não ir ao hospital.

Há muitas mulheres grávidas que não têm os filhos no hospital por culpa dos maridos, conta Laura Alfredo, uma residente no distrito de Morrumbene, província de Inhambane.

Os maridos têm medo que as mulheres laqueiem as trompas no hospital, para não terem mais filhos, sem o consentimento deles – por isso, obrigam-nas a fazer o parto em casa, denuncia. Mesmo se forem consultas pré-natais, os maridos não aceitam “nem se avistar com o médico”.

Mas a falta de aconselhamento acarreta riscos. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), todos os anos morrem em Moçambique cerca de 29 mil recém-nascidos, sobretudo devido a infeções durante a gravidez ou complicações no parto.




Denúncias de cobranças ilícitas

Ainda há outro motivo que leva muitas mulheres grávidas a ter os filhos em casa, segundo uma cidadã, que pede para não ser identificada, por medo de represálias: supostas cobranças ilícitas nas unidades de saúde.

“Tem sempre de levar 500 meticais [o equivalente a cerca de 7 euros] no bolso para a enfermeira a atender. Para ir à consulta pré-natal, tem de ter uma madrinha enfermeira, se não é deixada à sua sorte”, afirma. “Na maioria dos partos no hospital rural, se não fez um pacto para ela a acordar, ela esquece”.

Naftal Matusse, diretor provincial de saúde em Inhambane, recusa comentar estas acusações em detalhe. Avança apenas que alguns profissionais foram expulsos ou enfrentam processos disciplinares e estão a responder na Justiça por causa desta prática.

Apelo das autoridades

Matusse pede, no entanto, às mulheres que se dirijam às unidades de saúde, para serem acompanhadas durante a gravidez.

“Muitas das vezes, os óbitos acontecem devido à chegada tardia às unidades sanitárias”, diz. “O que nós queremos é que os agentes polivalentes elementares, os líderes comunitários e os familiares dessas mulheres grávidas as encaminhem para a unidade sanitária, para que elas tenham, no mínimo, quatro consultas pré-natais. Assim poder-se-á detetar o risco.”

Benilde Soares, especialista de saúde da UNICEF, revelou à DW África que a organização vai ajudar a implementar várias medidas para combater a mortalidade neonatal ao longo deste ano, incluindo um programa de monitoria de enfermeiros de saúde materno-infantil, em colaboração com o Ministério da Saúde.

O programa começará na Zambézia, por ser uma das províncias moçambicanas com a maior taxa de mortalidade neonatal.

DW

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